Vamos criar uma situação hipotética.
Dois amigos se dão muito bem e fazem diversos programas juntos, as esposas se dão bem e os filhos são colegas de escola há muitos anos. Uma amizade muito estreita.
Ambos costumam jogar tênis juntos e jogam bem. Um terceiro amigo sugere que todos entrem em um pequeno torneio no clube. Como sabem que são bons jogadores se empolgam e aceitam a proposta.
O torneio tem seu andamento normal e ambos vão vencendo todas as partidas até o ponto em que têm que enfrentar um ao outro.
Naquele exato momento, em que estão um frente ao outro na quadra de tênis, percebem que toda a harmonia que tinham desaparece. Em seu lugar, surge um sentimento mais instintivo, mais bruto e a vontade de ambos é sobrepujar o amigo, mostrar que é melhor e mais forte.
O saque é mais forte e não tem o objetivo apenas de acertar dentro da quadra. A idéia principal que toma conta do campo mental dos dois é também acertar o amigo com a bola. E a troca de agressividade cresce a um ponto em que um não mais reconhece o outro. E nenhum dos dois percebe seus próprios sentimentos, busca apenas encontrar o ponto fraco do outro.
Tá Anelise, e qual a intenção desta historinha?
Primeiro: perceber de onde vem este sentimento amargo que mexe com as entranhas de forma violenta e faz com que os amigos esqueçam que são amigos e passem, ainda que apenas por aquele instante, a ser predadores um do outro.
Segundo: será que pelo simples fato de manifestarem este sentimento, devem questionar seus sentimentos fraternos?
Terceiro: porque não percebem que a reação agressiva de um repercute no outro e que a resposta à agressão apenas eleva seu potencial? Porque não conseguem parar a cadeia?
Quarto: o torneio de tênis era realmente tão importante?
A primeira conclusão que chegamos, é que as duas pessoas envolvidas já atravessam por um trabalho de contenção do seu ego, afinal, conseguiram conservar seus sentimentos tranqüilos e um relacionamento saudável por muito tempo, resolvendo suas pequenas pendências nos momentos em que aconteciam. Já é uma grande vitória.
A maioria das pessoas que habita nosso planetinha não tenta controlar seus instintos primais e na verdade acredito que nem pense neles. Trata-se de simples manifestação do que acreditam correto.
Nossas escolas e nossa sociedade estimulam a competição e rivalidade entre as crianças desde muito cedo. É importante ser o melhor, o mais forte, mais inteligente e guardar o mantra “farinha pouca meu pirão primeiro”. Só que ninguém percebe que assim se criam pequenos monstros que adultos serão grandes monstros, que não conhecem o poder da cooperação e da união. Atualmente entendo que a situação é ainda mais grave, pois além rivalizar os alunos e filhos os pais e educadores são hipócritas, pois mantém o discurso politicamente correto e no mais das vezes agem de forma diversa.
A reação dos nossos amigos na historinha é a imediata conseqüência desta educação. E sem dúvida é a reação que cada um de nós tem em muitas situações semelhantes e talvez não tão explícitas. Como diz um amigo meu, é momento em que dá “uma reviravolta aqui” (com movimentos circulares na barriga... rs...). O animal escondido dentro de cada um de nós se liberta e cega a razão. Deste animal interno nascem muitos dos crimes perpetrados na nossa sociedade.
Claro que não podemos culpar apenas nossa “sociedade malvada”. Senão também tudo fica muito fácil. Cada ser é diferente e teve experiências de vida que ainda que tenham sido semelhantes às de outras pessoas, foram assimiladas de forma diversa por cada indivíduo.
Certo. Isso quer dizer que os amigos não são tão amigos quanto imaginávamos? Errado. Todo passo em direção à união é um bom passo. Não existe conceito estanque de nada, muito menos de amizade. O sentimento que tenho em relação ao meu próximo hoje não é o mesmo que terei amanhã ou que tive ontem.
No meu ponto de vista, o mais importante é a consciência desta animalidade momentânea. E principalmente a atitude que a refreia, que quebra o ciclo de violência.
Em nosso cotidiano, no mais das vezes, não tomamos consciência dos nossos sentimentos, parando a roda viva emocional e apontando para eles perguntando: quem é você e o que está fazendo aqui? Porque veio? Com esse simples reconhecimento se dá a interrupção do ciclo, pois temos condições de reconhecer, basicamente, o que é bom e o que é mau, o que é ético e o que não é.
Se um dos dois amigos mudasse sua posição mental agressiva, ainda que permanecesse jogando, teria condições de alterar a predisposição mental de ambos. Os saques são mais controlados e o jogo adquire um ar de civilidade.
A outra opção que poderiam aplicar os amigos, se tivessem consciência de suas reações, é simplesmente optar por não jogar. Evita-se o mal evitando o fato gerador. Mas para isso, sem dúvida, temos que aprender que tipo de sentimento cada fato da vida nos desperta. E isso só conseguimos descobrir vivendo.
Cabe aqui citar um pequeno trecho do Bhagavad Gita, uma “conversinha” básica entre Arjuna (representando o ego humano) e Krishna (o Eu divino do homem), quando este faz ao primeiro a Revelação da Verdade:
“14 - Quando os sentidos estão identificados com objetos sensórios, experimentam sensações de calor e de frio, de prazer e de sofrimento - essas coisas vêm e vão; são temporárias por sua própria natureza. Suporta-as com paciência!”