quarta-feira, abril 26, 2006

Nossos pequenos filósofos - Escrito e publicado em 25-10-2005.

Ao avaliar superficialmente as informações sobre educação e psicologia infantil contidas na mídia, observo que inclusive nestes assuntos tão amplos nossas crianças cada vez mais recebem o mundo mastigado e pronto para consumo.

Não falo aqui do assunto batido e rebatido relativo ao consumismo exagerado de bens materiais. Falo do viver, do sentir e do pensar na vida mesmo. Na realidade a palavra é: filosofar.

Se a criança pergunta: - Mãe, como eu faço para montar isto? Nossa tendência imediata é ou montar ou explicar claramente como deve fazer. Raras são as vezes que perguntamos: Como VOCÊ acha que se monta?

O mais interessante, é que quando fazemos esse tipo de pergunta aos nossos filhos, obtemos respostas impressionantes e criativas nas quais talvez nós mesmos, adultos e onipotentes, nunca tenhamos pensado. É possível vermos as pequenas mentes trabalhando e as sinapses nervosas surgindo.

Chego à conclusão, que em que pese nossa responsabilidade como pais que somos, talvez tenhamos mais a aprender com nossas crianças do que ensinar. Quando aprendemos a interagir com eles e na realidade a pensar também, sem consumir o mundo enlatado ou viver a vida em piloto automático, conseguimos ver a vida sob ângulos diferentes e por vezes mais divertidos do que acreditávamos possível. Basta fazê-los pensar!

E esse papel é também da família, ainda que a escola tenha o dever da educação. A criança que é ensinada que o “jeito certo” de desenhar uma flor com o cabo verde, as pétalas vermelhas e o miolo amarelo, vai acreditar no que o adulto está lhe falando, pois é dependente também do conhecimento dos que lhe cuidam e educam. A partir do momento em que ela entende que pode desenhar sua flor da forma que achar mais bonita, vai entender também que pode viver sua vida sem tanta rigidez conceitual, sem tantas crenças. E vai também conseguir argumentar com o educador mais tacanho que lhe impõe a flor tradicional. Conseqüentemente, quando adulto, conseguirá argumentar com a vida.

Evidente que para que nossos filhos pensem por si próprios precisam ter valores morais e éticos também inseridos em suas vidas desde pequenos. O respeito com o próximo e consigo mesmo, o carinho pelo ser humano sem preconceitos, pela natureza e a consciência de que vivemos em um planeta com recursos naturais finitos.

Isso sem falar na aceitação de que cada pessoa é e sempre será diferente da outra e julgá-la não vai fazer com que mude. E que estar ou não e ser ou não amigo ou companheiro de alguém, é uma escolha sua.

O pensar por si só - que, diga-se de passagem, já é um ponto difícil na educação, dadas nossas limitações pessoais - não faz com que nossas crianças venham a ser pessoas “do bem”. A somatória do pensamento com os princípios morais e éticos elementares para uma convivência em sociedade sim.

Vê-se daí, que a educação dos nossos pequenos é uma tarefa Hercúlea, especialmente porque a maioria de nós sequer reflete sobre o assunto. A correria, a vida, os compromissos profissionais e sociais nos limitam. Só não percebemos que estas também são escolhas nossas e que pararmos para “filosofar” também é fundamental!

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