
Há algum tempo eu penso em escrever sobre controle. Conhecem? Já ouviram falar? É um “amiguinho” com o qual levo um papo de vez em quando.
Sabem aquela necessidade que temos de que o mundo seja exatamente da forma como desejamos que ele seja? E sabem os esforços que fazemos (às vezes até inconscientes) para que tudo se enquadre perfeitamente neste querer? Então. Isto se chama controle.
Temos controladores e controladoras de todas as espécies.
Alguns são bem evidentes, em geral pais e mães de adolescentes (ou que acreditam que seus filhos ainda são adolescentes, mesmo que já tenham mais de quarenta) e dirigem-se aos filhos sempre “gerenciando”: não, você não pode fazer faculdade de música. Ou: o único esporte que vale a pena é o tênis. Pegar onda é coisa de vagabundo...
Não é a toa que tantos conflitos surgem na adolescência. Os pais perdem a noção de que os filhos não são mais crianças e que já são capazes de fazer algumas escolhas, especialmente no que diz respeito ao futuro. Vejam bem, não comungo da opinião que confere aos jovens uma liberdade incondicional. Se ele resolveu cursar música, deve fazê-lo porque realmente sente e ama a música, não se importando nem um pouquinho por não ser milionário. Basta saber que será feliz tocando música pois seu coração pulsa com ela. Inclusive, se a vocação está presente não é nada difícil que ele se torne realmente um “milionário de vocação”. É evidente, portanto, que toda a decisão deles pode ser apoiada sim, desde a origem da atitude venha realmente da essência do Ser. E mesmo que não venha, de qualquer forma quem vai assumir a responsabilidade pela escolha é só o filho - se os pais permitirem, lógico. Difícil isto tudo, né?
Mas voltando à minha classificação dos controladores, acho que o mais complicado de lidar é o que manipula. Aquele que não deixa óbvias suas intenções. Ele é praticamente insidioso, porque vai plantando seus pensamentos no coração do outro, de tal forma sub-reptícia, que no final o outro acredita que o pensamento é realmente seu. Tipo assim: mas meu filho, será mesmo que música é uma boa idéia? Conheço o filho de uma amiga minha, que fez faculdade de música e está aí, passando fome. E sabe que a coisa é tão séria, que ele sofreu um acidente e quebrou o braço. Não pode mais nem tocar. Já pensou? Se ele tivesse outra profissão, seria diferente. Você poderia fazer medicina e uma aula de música, que tal? Mas filho, eu vou lhe apoiar na escolha que você fizer...
Daí já está plantado o medo em uma mente mais suscetível e sensível. O moleque vai lá e se matricula em medicina. Passa, vira um médico rico, medíocre e infeliz, sonhando com os concertos que poderia ter feito ou a banda que poderia ter formado.
O controlador-manipulador sempre vai passar por bonzinho, pois em sua mente seletiva, lembra só que apoiou o filho no que ele quisesse. O filho até vai lembrar desta parte, mas sabe – lá no fundo – que tem algo de podre no reino da Dinamarca.
E para piorar, o controlador-manipulador pode agir desta forma por dois motivos.
Primeiro porque realmente acredita que se a outra pessoa agir da forma como ele está “sugerindo”, vai ser mais feliz – e neste caso impede o outro de passar por um aprendizado necessário, que nem sempre será de sofrimento, como acredita o controlador. Isto porque uma mesma experiência pode ser traumática para um e deliciosa para outro. Pessoas – graças a Deus – são diferentes. Esta espécie de controlador se entende absolutamente desapegado de seu ego, afinal, acredita estar agindo assim pela felicidade do outro. Só que ajuda, a gente só dá para quem pede. Até a Bíblia diz isto!!!
O segundo controlador-manipulador acho que é o pior de todos. É o que tenta fazer com que o outro faça determinada escolha porque não consegue conviver com a possibilidade de que o foco do controle faça uma escolha diferente. É totalmente egóico e centrado no umbigo.
Retomando o exemplo da faculdade, é o pai que não consegue conviver com um filho músico e sem muita grana, independentemente do fato de estar ele feliz ou não. Afinal, quem deve estar feliz com a profissão e a vida dos filhos são os pais, não é óbvio? Se ele for médico e rico, para o controlador desta espécie está ótimo. A felicidade da “vítima” é secundária, desde que o super-hiper-ego do controlador esteja satisfeito e possa dizer para os amigos: meu filho é um médico, muito bem sucedido profissionalmente. Este tipo de pessoa é maquiavélica, ou seja, os fins justificam os meios. Se precisar manipular a situação pelas costas do controlado, vai fazê-lo, porque os fins justificam os meios.
Estou usando os figurantes pais/filhos e escolha de profissão por ser mais “didático”. Poderíamos falar de amigos, irmãos, colegas de trabalho. Vale lembrar que no trabalho o controlador tem sido um problema, dando origem aos diversos casos de assédio moral. Além disso, o objeto do controle não diz respeito só às coisas supostamente “grandes” como a escolha de uma profissão. Seres humanos com tendências controladoras querem interferir em tudo, desde a roupa que você vai usar ao namorado que escolheu.
O fato é que nascemos para ser duas coisas: felizes e livres.
A partir do momento em que tentamos sujeitar alguém - direta ou indiretamente e pouco importando os motivos da sujeição - às nossas vontades, estamos tolhendo o direito sagrado do outro de escolher seu caminho e assumir plenamente as responsabilidades de sua escolha, sejam elas felizes ou não.
As experiências e escolhas que fazemos na vida, são a bagagem de aprendizado que nossa alma carrega. Se precisamos “desviar” dos controladores, o fardo fica um pouco mais pesado, pois precisamos despender uma energia que poderia ser canalizada para algo mais construtuvo para manter e reafirmar nosso direito inato ao livre arbítrio.
Se o exercício desta liberdade vai ou não nos conduzir à felicidade, somente quem escolhe pode dizer.
Amigos não decidem por amigos, irmãos não decidem por irmãos e pais não decidem por filhos. E vice-versa.
3 comentários:
Que lindo minha filha!
Poema para meus ouvidos!
Flores para meu cérebro.
Encanto para minha vida.
É ótimo ser tua mamãe!
Abraços e Beijos
escolhas nossas de todo dia...
"felizes ou não, são nossas..."
penso nas escolhas que fazemos... aqueles momentos que ninguem pode fazer nada por nós a não ser nós mesmos.E mergulhamos no mais profundo ser e fazemos valer o livre arbítrio!Ane,suas palavras fluem...
beijo grande
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