Existe um planeta neste vasto universo, habitado por seres que desde o início dos tempos são compostos da mesma Essência Divina, mas com aparência e sentimentos diversos. Com o passar de uma medida que eles chamaram de anos, foram encontrando subterfúgios para igualar suas desigualdades, enformando a aparência e engessando os sentimentos. Tinham a impressão que viver daquele jeito era mais fácil.
Só que muitos deles não se adaptaram àquele jeito de viver e ficaram do lado de fora da fôrma. Outros bem que tentaram, mas foram definitiva e peremptoriamente segregados do chamado mundo normal.
Daí nasceu a raça dos Esquisitos. Os Esquisitos, eram pessoas definitivamente diferentes dos Normais. Alguns, tinham barriga, outros mal tinham carne sobre os ossos. Uns tinham unha encravada. Vários outros tinham a cor da pele diferente, roncavam ou apenas vestiam as roupas coloridas que lhes faziam felizes.
Mas as características físicas eram o de menos, pois muitos Esquisitos podiam facilmente se fazer passar por Normais, afinal, existe muita beleza na normalidade. O que marcava mesmo os Esquisitos eram suas atitudes. Tinham a estranha mania de se ajudar e de ter compaixão. Cuidavam do outro, mesmo que não conhecessem e tinham imensa piedade dos Normais que outrora haviam sido seus algozes. Outrora, porque perceberam que só teriam os algozes que quisessem ter.
Os Esquisitos compreenderam que não poderiam ter todos a mesma aparência e que cada um é peculiar e nem por isso é melhor ou pior que o outro. Só é do seu jeito. Perceberam também, que um Esquisito não tinha a fórmula para fazer o outro ser melhor, e que cada um encontrava seu caminho de volta para casa. Para ajudar, bastava um sorriso ou um abraço.
Enquanto os Normais buscavam a felicidade nas coisas da vida, os Esquisitos descobriram que se seguissem o que realmente desejavam, respeitando seus sentimentos e seus companheiros de jornada, não precisavam buscar a felicidade, pois ela vinha junto no pacote do Self. Quanto mais estabeleciam seu elo consigo mesmo, mais felizes se tornavam. Quanto mais se conectavam com o Inominado, mais sublime e preciosa era a existência. Barracos viravam castelos e abóboras, carruagens.
As coisas estavam neste pé, quando em determinado momento da história, os Esquisitos, surpresos, perceberam que os Normais não podiam vê-los! Que choque! Todavia, como não necessitavam de mesuras, seguiram suas vidas, que eram devidamente re-conhecidas por seus pares, os outros Esquisitos...
Um dia, um Esquisito extremamente compassivo, percebeu que um Normal olhava assombrado em sua direção como quem vê um fantasma. Preocupado com ele, o Esquisito aproximou-se e lhe beijou a face. Imediatamente o Normal, que andava sendo repetidamente segregado pelos outros por levar sopa aos moradores de rua, passou a enxergar os Esquisitos e pensou: finalmente encontrei a minha praia! A notícia se espalhou entre os Esquisitos como rastilho de pólvora.
Só que esquisitice imposta vira normalidade, e todos sabiam disso. Assim, esperavam pacientemente o momento em que algum Normal vislumbrava espectros Esquisitos e lhes dava o beijo libertador.
Com o tempo, a prática se avultou, pois cada vez mais Normais percebiam o quanto era prazeroso ser Esquisito.
O mundo normal estava em polvorosa. A mídia alardeava: As pessoas estão sumindo!!! Na internet existiam fóruns para discussão sobre os desaparecidos e os cientistas faziam Congressos para discutir a fórmula do “reaparecimento”. Outros criavam medicamentos que prometiam a permanência eterna. Existiam CPIs para averiguar o caso e os governantes se acusavam reciprocamente de esconder exilados de seus países.
Ao mesmo tempo, a mesma mídia enlouquecida anunciava a existência do “povo invisível”. Ninguém os via, mas as coisas trocavam de lugar sem qualquer explicação! Curiosamente, como era típico dos Normais, não ligaram os desaparecimentos ao suposto povo invisível. Estabelecer elos e reconhecer sinais nunca foi especialidade dos Normais...
Neste momento, esta que vos “sonha” acordou...
O final, fica por conta da sua imaginação. Na minha, não terminou porque ainda está acontecendo. Como diz o Mestre Roberto Crema, é a fase em que a lagarta já morreu e a borboleta não nasceu.
Qualquer semelhança com a realidade, é mera coincidência...
Ou qualquer coincidência é mera semelhança...
Esquisito, né?
Sonhado em 24 de agosto de 2007, entre os dois dias do Seminário do CIT - Colégio Internacional dos Terapeutas da UNIPAZ, ministrado por Roberto Crema em Florianópolis/SC.


