Quarta-feira, Maio 30, 2007

Malvaviscos e Colibris

Hoje por aqui, os Florianopolitanos não me deixam mentir, foi um dia claro, de muito frio e com o céu muito azul. Saí para caminhar e, como costumo fazer, levei a máquina de fotografia procurando flores e detalhes inusitados da natureza.

Na região onde moro, existe um arbusto muito comum, que dá uma flor parecida com a do hibisco, só que nunca desabrocha, como vocês podem ver na foto. Pesquisando na internet, descobri que é chamada exatamente de “hibisco-colibri” ou “malvavisco”. Nunca me senti muito atraída por ela, pois sempre que a via absorvia a idéia do “estar fechado”. Fechado para a vida e para o mundo, sem nunca se abrir, como a flor. E esse sentimento me incomodava, tanto que nunca quis plantá-la em casa, apesar dos arbustos sempre carregarem de flores durante o ano todo.

Só que eu não tinha a menor idéia de que a flor era extremamente apreciada pelos beija-flores, especialmente vendo-a daquela forma, fechada e sem graça. Afinal - eu pensava – os colibris não gostam nem dos hibiscos abertos, quem dirá dos que nunca abrem... Todavia, qual não foi minha surpresa, nessa luminosa manhã de inverno, ao ver – sem brincadeira – três beija-flores ao mesmo tempo, felizes da vida extraindo o néctar das flores em um arbusto enorme de malvavisco (este mesmo da foto).

Tentei com todo cuidado fotografar a cena mas, evidentemente - dada a imensa sensibilidade dos bichinhos, bastou o gesto de levantar a câmera para que fossem embora.

O restante da minha caminhada foi pautado na metáfora dos beija-flores.

Em primeiro lugar, fiz o mea culpa, ao perceber que julguei a planta por sua aparência. Minha mente analítica e julgadora - provavelmente aliada a algum complexo de ostra ainda que persista em mim, rotulou a planta como triste, melancólica e fechada. Como faço e, se me dão licença de falar por vocês, fazemos todos nós com as pessoas que passa pela nossa vida.

A seguir, re-percebi que assim como as flores somos diferentes. Nós. Seres humanos. Vários de nós desafiam os padrões sociais relativos à aparência, comportamento, opção sexual ou religiosa e mantém a essência de tal forma que estão sempre cercados de colibris.

Sempre disse que este é o lado divertido da vida. Podemos manter nossa essência sim. Não precisamos agradar nem desagradar ninguém para firmarmos nossa posição. Assim como nós, o outro, o próximo que nem sempre está tão próximo apenas precisa ser aceito. Basta sabermos quem realmente somos e o que efetivamente buscamos com a tranqüilidade de que não há certo ou errado. O certo e o errado são tão relativos, quanto o trema de “tranqüilo” está para ser abolido...

A máscara que carregamos é apenas uma proteção, uma manifestação externa que necessitamos para conviver em sociedade neste momento histórico. Mas o néctar da nossa essência, ainda que nos percamos dele de vez em quando, permanece independentemente das nossas máscaras sociais.

Tudo bem, concordo que esta constatação parece evidente. Mas sabem, fico maravilhada com a sincronicidade do universo ao vê-la se despir de forma tão clara através da natureza, como num estalar de dedos.

São pequenos momentos como estes que me lembram que viver é uma experiência Divina... E é fundamental que os “arrepios” surjam em diante de cada um deles...